Review – Kizashi (18+)

Quem nunca?

O que é um crítico? Temer olhar algo e ver nada além de sua banalidade. Isso faz parte da crítica de arte, onde há muito do que chamam de subjetividade. Um crítico vê uma obra de uma maneira, outro, de outra, e assim por diante. Obras ricas em significado geram uma gama de olhares sobre elas que quase sempre não entram em consenso. Obras “menores” são pobres nesse aspecto, e possuem uma forma simples e representativa, um único sentido. Seria a dinâmica o inverso? O gênero doujin talvez seja uma delas. Também nomeados “hentais”, esses mangás com erotismo elevado frequentemente sofrem chacota do público e negligência da crítica. Um dos clichês da crítica de animes, inclusive, é dizer que o fanservice retira o olhar do enredo e o põe em elementos menos importantes. Como abordar, então, esse gênero cuja importância recai justamente nesses elementos aparentemente menores, desimportantes? A única forma de saber é lendo e relendo um hentai do Yoshiura Kazuya ― “Kizashi”, Sinais.

Yamada é um estudante de cinema que nutre sentimentos reprimidos pela sua amiga de infância e colega de classe, Hinako. Num dos ensaios que filmavam, o diretor vai mostrar à jovem como ela deve atuar na cena de romance, e acaba por ir longe demais. Seu gesto desperta uma pitada de ciúme e inveja em Yamada, que, ao ficar só na sala, com Hinako a dormir ― típico setup do gênero ―, desconta sua frustração apalpando as partes íntimas da colega. Para a surpresa dele, ela acaba cedendo, e para a do leitor, o que dava sinais (kizashi) de ser um netorare comum mostra-se ousado em ter um protagonista que não apenas se vinga ― algo raro por essas bandas ―, mas que inverte o jogo e nos põe na perspectiva de quem seduz.

Nos últimos anos a tag “cuckoldry” tem chamado a atenção dos analistas de bancos de dados e do público em geral por ter se tornado um dos termos mais procurados nos sites populares de pornografia. Haja vista o seu significado, a impressão imediata é de choque e um gosto de ironia. A palavra, que em português seria aproximadamente “cornice”, remete à condição de se ter um chifre na testa, um corno de boi, cuja origem e o simbolismo vão desde os mitos gregos até a iniciação ou abertura pra uma nova realidade, segundo a psicanálise jungiana. Na maioria das vezes consistindo num contexto de traição, vale ter em mente as diferenças sutis entre o conceito ocidental e o japonês.

No ocidente, corno é a vítima da infidelidade do cônjuge; no Japão, o termo mais apropriado para isso seria uwaki, o que desvia um pouco do que trato aqui. Trato de netorare, que vem de netoru, literalmente “pegar alguém que já dorme” (com outrem). Desse radical nós temos outras variantes: netori, netorase, etc. Uwaki e netorare se diferem pois o primeiro é um adjetivo que significa infiel, e o segundo é o verbo netoru no particípio, que pode ser lido como um substantivo, e traduz-se para “aquele(a) que é roubado(a).” Netori e netorare são termos análogos. A diferença entre eles está em quem faz a ação e quem a sofre, ativo e passivo. Assim, netori quer dizer “aquele(a) que rouba.” Esses termos servem para o leitor saber de que ponto de vista a história é narrada, e consequentemente no que a história se presta. Netorare se preocupa em excitar o leitor através de sentimentos de ciúme, impotência e raiva, enquanto netori o faz se autoprojetar nos pés do sedutor.

Essas dicotomias são necessárias tanto para entender a peculiaridade de “Kizashi” quanto para um comentário cultural. O pornô ocidental representa a cornice como estado do cônjuge que foi vítima de uma ação geralmente da mulher. Nas narrativas ocidentais, a mulher é quem tem poder de compra e decide seus parceiros, muitas vezes sendo isso um reflexo da conquista feminista na dinâmica sexual do cotidiano. Os leitores de cá, por sua vez, tornam-se irascíveis com essa representação mais liberal da mulher, justificando a ação dela numa alma promíscua. Apesar de plausível e até uma reação prevista, faz pouco sentido aos casos de netorare, que, como o próprio indica, são vítimas de sedução. As personagens de “Kizashi”, por exemplo, ora são seduzidas e ora são sedutoras. Muitos netorares tem, verdadeiramente, a mulher como protagonista, e não o homem. A chave da vez é o testemunho do seu conflito interno entre a fidelidade da carne e a fidelidade do espírito ― onde começa um e termina o outro, se o corpo é entregue aos deleites da carne, mas o espírito ainda se guarda à ideia mais sacra de amor? O apelo dessa pornografia “de corno” do Japão está antes em ver algo puro gradualmente se tornar impuro do que simplesmente assistir um roubo. Afinal, o que acontece se o sátiro alcança as ninfas?

Por tudo isso, “Kizashi” é uma raridade no cenário de pornografia japonesa e no geral. Ele é ao mesmo tempo um netori com netorares e uma premissa de netorare que se resgata no fim. Yoshiura fez bem ao colocar Yamada como um entusiasta de cinema, tornando o fato de ele andar com uma câmera na mão e filmar as suas vítimas se masturbando uma marca de seu voyeurismo. Voyeur, aqui, num sentido distorcido, pois o tesão do protagonista é assistir e proporcionar a degradação da ideia sacra do espírito. Primeiro ele começa com Hinako, a arquetípica amiga de infância que se transforma numa ninfomaníaca, e segue para outra colega, Takei, na qual faz com ela o que lhe fizeram ― mostra seu namorado com Hinako nos braços, situação genérica de netorase onde o cônjuge é obrigado a dormir com outrem. Hinako não lhe serve mais do que uma ferramenta para seus fins sexuais.

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Todas as garotas da história invariavelmente acabam sucumbindo ao sexo. Yamada percebe-se detentor de um poder que aos poucos se revela uma faca de dois gumes, mas que enquanto oferece às demais personagens parte do que elas procuram ele usa isso a seu bel prazer. Porém não é o único com esse poder. Yarimizu Risa, quem tornou Yamada o que é, também usa o seu sexo como forma de dominar os homens mais fracos de cama. Durante a maior parte ela transita em elipse pelos lugares, colecionando um time de homens pervertidos, insensíveis ao sexo casual. A princípio parece que ambos são quem estão saindo a ganhar pegando toda a gente e convertendo-os a uma dependência sexual para com eles. Nesse sentido o autor provoca uma reflexão sobre o netori ― a perspectiva de quem rouba. Mais e mais, por exemplo, o sexo deixa de ser fonte de um prazer íntegro como tem de ser, e os personagens que movem a trama vão desvelando seu caráter trágico, em termos de netorare.

Talvez o melhor arco a ilustrar a forma japonesa de lidar com questões de traição, de onde se pauta a jornada do protagonista e o tratamento feito ao tema por meio deste, é o da Kawamoto Hikari. Ela participa do clube de esportes, pratica corrida de salto, e seu físico definido é dedicado ao seu treinador, Chiba. Mas é um segredo, que ela só revela a Yamada, quando este passa a lhe ajudar. O protagonista procura mulheres que já elegeram um amor, e faz da corrução disso a sua excitação, mais uma vez.

As demais cenas com Yamada e Kawamoto transcorrem-se com ele relaxando os músculos dela após uma corrida. Entrementes eles conversam, Kawamoto revela um pouco de sua intimidade e Yamada lhe dá conselhos. O enquadramento nessas cenas é focado nas pernas da atleta, massageadas por Yamada. Nota-se que o mesmo relaxamento que ele dá ao corpo promove o relaxamento da mente, das questões psicológicas e da situação. Kawamoto fica tão aliviada e relaxada com seus problemas pelo que ele faz e fala, que cogita se dará algo certo entre seu treinador e ela. Quando se masturba pensando em Chiba, sua insegurança fica evidente: ela sente um amor puro por ele, mas sua forma de amá-lo é impura. Existe uma disparidade entre o corpo e a mente, a carne e o espírito, na qual o autor quer nos chamar atenção. Nenhum outro netorare explicita o próprio procedimento com essa meticulosidade sutil. Pois é essa disparidade entre o amor e o desejo a força motriz de várias narrativas “de corno” japonesas. Nesse caso, Yamada, naturalmente, se aproveitará dessa discrepância. Se Chiba não pode amar Kawamoto e da forma que ela quer, ao menos Yamada pode satisfazê-la naquilo que é impuro. A sacada do doujin é que assim como ele engana ela e as demais, se autoengana, embora custe a admitir. Até o último momento Kawamoto pensa em Chiba, mesmo que a rejeite, e as garotas não são mais do que brinquedos sexuais destituídos de uma correspondência amorosa genuína para Yamada.

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No Japão, a taxa de divórcios por casamento é menor que a do ocidente, e em contrapartida a de adultério é maior. É comum os casais japoneses permanecerem juntos mesmo após um caso extraconjugal. Para eles, menos que uma questão de amor, é uma questão de honra e imagem social, visto que o país tem uma tradição de abrir mão da vida por um alto senso de moral (vide haraquiri). Engana-se quem pensa que se mantêm por demasiado amor, embora as narrativas pornográficas japonesas utilizem desse subterfúgio para elevar o drama. Um caso exemplar é o hentai “Netoraserare”, de três volumes, um tanto popular uns dois anos atrás. Como o próprio título indica, trata-se de um netorare induzido por um netorase, onde, nas palavras do protagonista, amar é sofrer por amor.

Em um ponto “Kizashi” e “Netoraserare” acabam se convergindo. Na série de Shikishiro Konomi, Shujiro força Haruka a dormir com vários homens, e embora todos eles preencham seu corpo, tal como Yamada preenche os das garotas em “Kizashi”, isso é insuficiente para satisfazê-las no trato do espírito. O que histórias de netorare têm como agenda é justamente a depravação total do espírito ― a noção de que se o sexo for bom o bastante, aquele que rouba ganha a roubada tanto no desejo quanto no amor. Aqui é que mora muito do medo e do apelo dos leitores ocidentais. Equivocadamente enxergam uma linha tênue entre amor e desejo, portanto, pra nós é normal que o adultério seja uma justificação para o divórcio. O divórcio, quando há em netorares, é então celebrado pelos ocidentais, uma vez que simboliza a superação do marido quanto a degeneração da esposa. Mas o divórcio é raríssimo nos enredos desse gênero, sendo usado somente como artifício final para aumentar o suspense. O que ocorre na maioria é a mulher continuar vendo o amante enquanto mantém uma abstração de amor romântico pelo cônjuge.

Em “Netoraserare”, com tudo que o casal passa eles reconhecem e aceitam que essa é sua forma de se amarem, superando a dicotomia amor-desejo; em “Kizashi”, Yarimizu Risa, já no final, desmascara o modus operandi de Yamada, provando que são ambos dois lados da mesma moeda. Ela passou a história criando homens sexualmente dependentes dela, dos quais usa para tirar as mulheres de jogo e isolar Yamada. Mas ele fez o mesmo e, na distribuição de prazeres, as garotas acabam levando a melhor. Exceto na contenda entre os dois, com a qual Yamada não fica por baixo (literalmente). Num instante de possível desonra do espírito quando a carne já sucumbira, Yarimizu é a única mulher da série que verbaliza explicitamente a dicotomia essencial dos netorares, alegando que por mais que Yamada tivesse um sexo melhor, ela ainda escolhe seu namorado. Uma vez mais a questão é tensionada, quando o que pra ela não é nada, pro seu namorado é tudo.

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Todas as séries de netorare operam assim. Se há alguma moral aparente em Kizashi, é de que a insatisfação mora no fato de não conseguirmos exatamente o que queremos, exceto se se aceitar o que consegue. A não-aceitação gera o drama, e os envolvidos fazem o que podem para lidar com isso, nunca se satisfazendo sem abrir mão de algo. Mesmo Yamada não escapa.

Netorare é um gênero tão polêmico por mostrar as contradições humanas profundamemte inconciliáveis em relação à pureza e impureza do sexo. Aquilo que é tabu e até entre quatro paredes mal se fala, os fetiches que regridem-nos a um estado primitivo, são a matéria-prima do netorare. Tratam disso alguns em maior ou menor escala que outros, mas todos tratam. É um hentai, paremos pra pensar nisso. Comecei o texto falando da dificuldade de levar isso a sério, algo que tem o sexo como produto de venda. Se isso é o principal, o resto é secundário. É desculpa para as cenas de sexo. Todavia, Yoshiura Kazuya já escreveu e desenhou muitos netorares pra não ter formado uma noção própria do gênero e seus temas. Cada um tem uma abordagem sobre isso, e sendo Kizashi até então sua única obra serializada, presume-se que todas essas abordagens se condensem num novo modo de fazer netorare. A mudança de ponto de vista foi tudo. A história nunca foi estritamente um netori, mas um netorare através de um netori. Não há outro doujin que contemple assim a perspectiva de quem rouba.

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Um novo ano aparece, calouros chegam, e Yamada é agora senpai de todos eles. Ele tem vantagem, parece, no desenrolar das relações. Está gravando um filme, e quando estiver pronto pretende mostrá-lo a uma caloura parecida com Hinako nos seus anos de infância, a Sakurai. Com seus óculos de fundo de garrafa ela possui um design abestalhado, sem nenhum dote sexual aparente. Sua saia longa esconde as partes que interessam de seu corpo, e a impressão que fica é a do estereótipo de uma otome tradicional. A narrativa brinca com a suspeita (kizashi) de Yamada ter mudado, que agora ele entendeu a discrepância que ele vivia e nunca o permitiu se satisfazer de verdade, e projeta em Sakurai seu amor, enquanto ele e Hinako ― que mudou o visual totalmente ― continuam se vendo. As demais meninas estão ausentes, mas Risa reaparece para lembrá-lo que os dois estão fadados ao mesmo fracasso, e por isso Sakurai e Yamada nunca dariam certo.

Esse capítulo final é permeado de truncamentos nos momentos de revelações, ambiguidades desnecessárias nas falas que podem ou não ser um problema de tradução, e cliffhangers nos últimos instantes pra aumentar o suspense, tudo meio barato. O importante, porém, é que a tese é dada, e a incerteza nisso se é uma coisa ou outra normalmente faz parte das histórias japonesas.

Sakurai era a peça que faltava do quebra-cabeça temático. Se todos querem algo que não conseguem da forma que querem, ao menos uma personagem deve mostrar como é conseguir. E o trecho que se dá o intercurso sexual de Sakurai com outro calouro nas últimas páginas parece de outra série. É uma forma completamente pura de amor como a de um vanilla sufocada ali num mangá que elabora a natureza do netorare. Yamada olha os calouros pela fresta da porta e se imagina no lugar deles, refletindo que não seria o mesmo, não tão puro quanto; reluta em admitir que perde a eleita, que é díspare, que nada pode fazer senão observar e filmar com a câmera na mão, tudo enquanto o corpo ignora as justificativas mentais e reage à cena com uma honestidade própria. Diante dele se desdobra a consumação do que exatamente procurava, pro bem ou pro mal.

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Ao passo que nos compadecemos pelo protagonista, cuja tensão entre o que queria e o que achava que queria é perene, percebemos uma narrativa que nessa argumentação subjacente celebra o amor inviolável do espírito, de que, embora aquelas meninas tenham sido roubadas (netorare) de seu amor puro, quem rouba (netori) não vinga. À verdade, quem sai ganhando nisso é o voyeur, o terceiro participante da dinâmica que chafurda-se no fetiche ao observar tudo. Yoshiura entende isso e baseia o enredo nesse flerte com a ideia de um corpomente sexual, e que o protagonista sacia esse corpomente. A cena final quando Hinako se deixa ser possuída por outro para agradar Yamada é crucial nesse sentido: é o convite do autor à aceitação do fetiche do leitor pelo personagem que, afinal, desde o início se autoprojetou. Kizashi, ainda que opere como um netori, é essencialmente um netorare, no qual pede pra ser apreciado com uma atitude voyeur como a do Yamada.

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